Abrem-se hoje, oficialmente, as Comemorações dos 425 Anos da Misericórdia de Arcos de Valdevez, as quais irão decorrer ao longo de todo o Ano. Pretendemos assinalar esta data considerando a ação que a Instituição desenvolveu ao longo de mais de quatro séculos no nosso concelho. Foram muitas gerações de arcuenses que serviram a Instituição e através dela o concelho, apoiando os mais desfavorecidos e frágeis da nossa sociedade, numa atitude de solidariedade para com os mais necessitados. Igualmente, preocupou-se a Misericórdia com o seu acervo cultural, quer através da construção e manutenção do seu património, quer nas obras de arte e publicações que preserva. A ação da Santa Casa centrou-se sempre no concelho, numa preocupação de coesão social, territorial e valorização cultural.
A História da Misericórdia confunde-se ao longo destes séculos com a História do concelho. Pertenceram, muitas vezes, à Misericórdia as iniciativas para a satisfação de necessidades dos arcuenses. A construção do Hospital de São José, inaugurado em 1885, é bem o exemplo da determinação da Santa Casa em abraçar uma causa, a da saúde, disponibilizando este bem aos arcuenses que ao longo de um século tiveram neste hospital a sua âncora de apoio em serviços de saúde, com elevada qualidade para os padrões então estabelecidos. O Hospital de São José espelha a ousadia e dinamismo da Misericórdia, sendo ainda hoje um edifício imponente que continua à disposição da população do concelho, com serviços de saúde e valências de apoio à deficiência.
A Igreja da Misericórdia, de finais do século XVI, define a matriz cristã da Irmandade da Misericórdia, tendo a Instituição ao longo dos séculos investido sempre na sua ampliação e enriquecimento. A última grande intervenção ocorreu na segunda metade da década de 2000, tendo possibilitado a abertura da Igreja ao culto com a celebração da Missa Dominical, como era tradição, e a realização de eventos religiosos como a procissão do “ECCE” “HOMMO” na Semana Santa, ou a Festa de Nossa Senhora da Porta no terceiro domingo de setembro. A Irmandade sempre preservou o culto à Senhora do Manto Grande e a observância das catorze obras de Misericórdia, como elementos centrais da intervenção da Instituição. A Igreja e o seu Consistório constituem uma reserva da identidade da Santa Casa que a Irmandade valoriza e preserva, constituindo um elemento diferenciador que norteia a sua ação.
Atendendo à intervenção da Misericórdia, assente em valores de humanismo e solidariedade, para com os mais desfavorecidos, foi a Instituição credora da confiança de arcuenses que lhe deixaram doações visando prosseguir e ampliar a sua intervenção social. Em 1925, José António Soares Pereira legou uma parte do seu património à Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro e outra parte à Santa Casa da Misericórdia de Arcos de Valdevez, sendo afeto esse património à abertura do Lar Soares Pereira que ao longo de décadas tem acolhido muitas gerações de arcuenses. Igualmente, Joaquim Cerqueira Gomes, em 1929, deixou, através de testamento, a sua Quinta do Paraíso, onde hoje está instalado o Lar Cerqueira Gomes, que acolhe crianças institucionalizadas pela Segurança Social ou pelos tribunais, além de ter serviços de creche, Jardim de Infância e um Centro de Atividades de Tempos Livres (ATL), com apoio ao estudo. Na “Quinta do Paraíso” estão instalados um conjunto vasto de serviços de saúde, apoio social e de infância, constituindo o designado Complexo Vilagerações que assenta no conceito de intergeracionalidade. Em 2018, foi efetuda a doação de um apartamento para o Lar Residencial de pessoas com deficiência, em cumprimento da vontade de Herculano Tarroso Gomes, tendo-se atribuído o seu nome ao respetivo Lar como reconhecimento do seu gesto filantrópico. No final do ano transato, através de testamento, o Dr. Augusto de Magalhães Ribeiro da Fonte contemplou a Misericórdia com alguns bens, nomeadamente a Quinta do Facho em Vila Fonche, os quais recentemente foram registados em nome da Instituição. Muitos outros apoios têm sido concedidos à Santa Casa com a finalidade de criar condições para prosseguir a sua missão. Igualmente, o voluntariado tem-se revelado de primordial importância em termos de dádiva às causas da Santa Casa, contribuindo para manter bem vincada a sua matriz humanista e social cristã.
Ao longo destes mais de quatro séculos, muitas mudanças sociais, politicas e religiosas ocorreram com incidência na ação da Santa Casa, mas a sua missão manteve-se, e soube adaptar-se às novas realidades. Na última década e meia a Misericórdia abriu serviços na área da saúde, nomeadamente as Unidades de Cuidados Continuados de Longa, Média Duração e Convalescença, representando hoje 82 camas afetas à rede Nacional de Cuidados Continuados, a que acrescem mais dez camas de Cuidados Individualizados e Paliativos. Avançou-se, igualmente, com os exames complementares de diagnóstico através dos serviços de Imagiologia. Disponibilizaram-se consultas em várias especialidades, abriram-se serviços de Fisioterapia e de Hemodiálise, estando para breve a abertura de um posto de colheita de Análises Clinicas. Construi-se um novo Lar Residencial, hoje com capacidade para 39 camas, e reabilitou-se o Lar de Infância e Juventude com capacidade para 42 utentes. Realizaram-se obras de beneficiação do Jardim de Infância, hoje com três salas e 75 crianças. A creche dispõe de capacidade para 68 crianças e o Centro de Atividades (ATL) tem dimensão para acolher 40 utentes. Pela primeira vez a Santa Casa abriu, no final da última década, serviços na área da deficiência, com um Centro de Atividades Ocupacionais com capacidade para 30 utentes e um Lar Residencial com lotação para 15 pessoas deficientes.
Em curso estão as obras para ampliação do Centro Clinico e do Lar Residencial para Deficientes, dando maior escala aos serviços que aí são disponibilizados. Em elaboração estão os projetos de requalificação e ampliação do Lar Soares Pereira para um Centro Residencial que se dedique às demências, com duas unidades de 45 utentes cada, assim como a ampliação do Complexo Vilagerações para ampliar a capacidade do Lar e das suas respostas no âmbito da saúde. O Antigo Seminário, adquirido com o apoio do Município, será afeto às funções sociais desenvolvidas pela Santa Casa, tendo subjacente as necessidades identificadas. A estas intervenções acresce o dinamismo evidenciado pela Santa Casa na execução de projetos imateriais, direcionados para o apoio aos mais desfavorecidos ou implementação de ações, no âmbito da economia social, focadas nos estratos mais vulneráveis da comunidade arcuense. Exemplo destas intervenções foram os projetos executados como o CLDS (Conselho Local de Desenvolvimento Social) ou da RLIS (Rede Local de Intervenção Social), onde as parcerias realizadas contribuíram para o bom desempenho em termos de apoio social aos estratos populacionais que beneficiaram destas ações.
Existiu sempre uma enorme capacidade de resiliência face à mudança e às dificuldades que foram colocadas à Instituição, e apesar da sua antiguidade e dimensão, houve sempre um considerável esforço de adaptação, continuando a sua ação ao serviço das necessidades sociais identificadas. A Misericórdia encontrou sempre na Irmandade e nos Irmãos que a integram o alicerce necessário para prosseguir com a sua ação, fiel aos seus princípios e valores, apoiando os mais necessitados e desfavorecidos. O futuro impõe-nos hoje uma adaptação contínua e uma enorme exigência. Adaptação à mudança, cada vez mais vertiginosa, num mundo digital onde prepondera a comunicação. Exigência na preservação dos valores e da matriz cristã da Misericórdia, assim como na sua governação a qual deve estar comprometida com a sustentabilidade, possibilitando-lhe assim condições para continuar a “Fazer o Bem”. O desafio é grande necessitando do envolvimento de todos. A Misericórdia de Arcos de Valdevez, pela sua dimensão e longevidade, é um dos projetos de maior sucesso que os arcuenses ergueram, o qual se tem mantido ao longo destes mais de quatro séculos ao serviço de todo o concelho. A ambição é alargar e robustecer a Instituição, respondendo às novas necessidades e procura, mantendo-a sempre atual e dinâmica.
Comemoramos o passado com os olhos postos no futuro, atentos à realidade onde estamos inseridos, com os valores de sempre, apoiar os mais necessitados e desfavorecidos da nossa sociedade arcuense.
Obrigado.
O Provedor,
Comendador Francisco Rodrigues de Araújo (Dr.)

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